“Ni una más”, o simbólico da frase

Os casos de feminicidio e a dose de machismo diário para nos roubar um pouquinho de vida todos os dias

Por Laís Modelli

Símbolo de luta do Ni Una Más

Símbolo de luta do Ni Una Más

Era o que ouvia nas ruas do México quando morei no país, em 2013. Eles e elas estavam em toda manifestação (coisa que acontece quase toda semana na Cidade do México), segurando cartazes, as vezes com a boca amordaçada em símbolo de protesto, sempre com os dizeres “Ni una más”. Eu não entendia o que aquela frase, claramente de um movimento feminista, teria a ver com manifestações sobre problemas políticos, lutas de terras, miséria mexicana, censura midiática e narcotráfico. Mas tem.

No dia 31 de janeiro, data da marcha nacional de todas as manifestações do México (leia mais numa matéria minha para a Caros), perguntei a um homem que segurava um desses cartazes o significado. Ele me explicou que a frase remete às mulheres “mortas de Ciudad Juarez”, cidade na fronteira com os EUA onde crimes brutais contra mulheres é algo corriqueiro e quase sempre sem investigação na Justiça dos agressores. Com a divulgação dos casos de Juarez por ONGs e movimentos sociais que lutam pelas vítimas, a frase se espalhou pelo México e outros países da América Latina para denunciar todo abuso, crime e maltrato contra o sexo feminino.

Aconteceu que as “mortas de Juárez”, expressão que depois descobri ser reprimida por pesquisadores feministas do México por parecer que as mortes não têm causa aparente e que são mortes por causa de um comportamento “natural” da região (coisa que os pesquisadores lutam para ser reconhecido como casos de Feminicídio), me chamou atenção. Passei a pesquisar o caso mexicano e vi como o meu país também se enquadrava nos casos de discriminação e violência contra mulher. Me perguntei se é um comportamento de repulsa e rebaixamento cultural ao sexo oposto cometido em todos os países latinos? Ou em todo o continente americano? Ou no mundo todo? Eu não sei, mas o fato é que existe uma marginalização da figura feminina, e é muito mais mascarada e refinada do que aquele antigo papo de diferença salarial entre homem e mulher. O buraco é mais embaixo, mais sutil, mais devastador.

O projeto do blog
Depois de frequentar um grupo de estudos feministas na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), de ter contato com os estudos de Marcela Lagarde (bio) e quebrar o meu próprio preconceito com a palavra Feminismo, passei a me interessar pelo tema, principalmente sob o ponto de vista midiático: a mídia tem contribuído para a construção de uma nova consciência feminista ou para a manutenção de um antigo machismo patriarcal? Sou jornalista e também posso estar nessa ciranda sem perceber o impacto das minhas palavras publicadas.

O fato é que, depois que se sente na pele o machismo latino, seja pela separação de homens e mulheres nos metrôs da Cidade do México, seja pelo constante medo de ser estuprada em um táxi clandestino em qualquer lugar do continente, crio o blog para reunir pesquisas e notícias sobre tipos de violência contra a mulher no Brasil e no mundo. O material reunido no Nem uma (mulher) mais pretende virar insumo para pesquisa de gênero em Comunicação Social para o meu mestrado. Assim, todos que também se identificam com a causa, podem contribuir com opiniões, envio de textos, vídeos e notícias. Obrigada.

EDITADO: O Nem uma mulher mais virou projeto de mestrado em março de 2014. No lugar de estudá-lo, achei mais coerente estudar manifestações feministas em blogs (Blogueiras Feministas, Blogueiras Negras e blog da Marcha Mundial das Mulheres) e em marchas de rua. O que leio, escrevo e assisto, continua vindo pro blog ou para a página no Facebook, afinal, este blog ainda é uma ferramenta para me comunicar com outras mulheres e feministas e um meio para me fazer pensar sobre o machismo na mídia.

Nem uma (mulher) mais, um observatório sobre violência contra mulheres

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