A obra de Frida Kahlo e os cinco cativeiros humanos de Marcela Lagarde

Artigo científico apresentado no II Seminário Internacional Gênero, Sexualidade e Mídia, promovido pela UNESP Bauru. Por Laís Modelli e coautoria de Letícia Passos Affini.

A obra de Frida Kahlo e os cinco cativeiros humanos de Marcela Lagarde

Resumo

Este artigo apresenta um diálogo entre três obras da pintora Frida Kahlo (1907-1954) e as cinco categorias de repressões de gênero criadas pela antropóloga e feminista Marcela Lagarde (1948), autora do livro Los cautiverios de las mujeres. Madresposas, monjas, putas, presas y locas (1991). Cabe a este trabalho problematizar como Kahlo se enquadra nas categorias dos cativeiros humanos propostas por Lagarde. Conclui-se que a incapacidade de gerar um filho e o casamento frustrado estão representados nos quadros analisados, confirmando a hipótese de que a pintora enquadra-se na categoria das Madresposas.

Palavras-chave: Frida Kahlo, obras plásticas, gênero, feminismo.

Introdução

Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón (1907-1954, Cidade do México) foi uma pintora mexicana. Começou a pintar depois de um acidente de trem sofrido aos 18 anos que deformou suas pernas e coluna. As imperfeições físicas foram disfarçadas na vida real, com roupas largas, saias rodadas e vestidos compridos, mas foram retratadas em quase toda a sua obra.

Quando a pintora nasceu, Guilermo Kahlo, pai de Frida, um alemão naturalizado mexicano, era fotógrafo do governo de Porfírio Díaz (1876-1910). Com a Revolução Mexicana (1910), Guilhermo perde o cargo e a família passa por dificuldades econômicas. Frida começa a trabalhar aos 14 anos para ajudar no sustento da casa. Vem da época do Porfiriato o casarão em que a mexicana nasceu e morreu, a Casa Azul, hoje Museu Frida Kahlo, localizado em Coyoacan, na Cidade do México.

A responsabilidade de ajudar na manutenção do lar deu a Frida uma liberdade que as outras meninas da sua idade e classe social eram privadas. Foi no primeiro trabalho, em uma gráfica do amigo do pai, que Frida aprendeu a desenhar. Nessa época, pensava em ser médica e não artista plástica. Estudava na Escola Preparatória, onde conheceu Diego Rivera (1886-1957) quando o artista pintou um de seus murais na escola.

Em 1925, na companhia do seu então namorado, o trem que conduzia Frida da escola para a casa chocou-se com um bonde. O acidente deixou a pintora três meses em coma e mais um ano acamada, com o corpo praticamente engessado por inteiro. Passou por 36 cirurgias e longos períodos de engessamento até os vinte anos de idade. Presa à cama, a artista começou a pintar seus primeiros autorretratos depois que seus pais instalaram espelhos e um cavalete sobre seu leito. Foram resultados do acidente: as deformações físicas, as dores nas pernas e a impossibilidade de engravidar.

Depois de anos de recuperação, Frida foi até Diego Rivera mostrar seus quadros. Entrou para o Partido Comunista sob influência do pintor e começou a namorá-lo. Casaram-se em 1929, tornando-se a terceira esposa do artista. O casamento foi marcado pelos três abortos espontâneos da pintora e pelas inúmeras relações extraconjugais de ambos. Mesmo que a fidelidade não fosse algo importante para o funcionamento da estrutura matrimonial do casal, a traição de Rivera com a irmã mais velha de Frida, Cristina Kahlo, pôs fim à união. A artista passou a pintar uma grande quantidade de autorretratos tanto para obter independência econômica do ex-marido, período em que foi morar sozinha em um apartamento no centro da Cidade do México, como para externar o sofrimento do abandono e da traição, confessados no seu diário.

Depois de complicações de saúde, Frida amputou uma das pernas e voltou a morar na Casa Azul. Reconciliou-se com Diego, retomaram a amizade e voltaram a morar juntos. Ele cuidou da pintora, que morreu aos 47 anos, já acamada e impossibilitada de pintar por causa dos tremores nas mãos.
Lagarde

A mexicana e antropóloga Marcela Lagarde y de los Ríos (Cidade do México, 1948), autora da tese de doutorado Los cautiverios de las mujeres. Madresposas, monjas, putas, presas y locas, defendida em 1988, na Universidade Nacional Autônoma do México, UNAM. Publicada em 1991, a obra chama de cativeiro a expressão político-cultural da condição histórica de gênero da mulher, sendo que cada uma já nasce cativa.

Em Lagarde, o cativeiro se caracteriza pela opressão e privação da liberdade, sendo essa determinada pela condição de classe, pela heteronormatividade, pela heterossexualidade e pelo machismo. O corpo é o lugar de materialização dos cativeiros. Já o modo de vida, a definição histórica da condição da mulher, a sexualidade e a relação com os outros determinam o grau e nível de cativeiro.

São os cinco cativeiros: as Madresposas (mãe-esposas), que se entregam à figura do lar e à família em troca de sua sexualidade submetida e negada; as Monjas (freiras/beatas) cativas pela religião, pelo convento, pela vida consagrada e na sexualidade tratada como tabu; as Putas (prostitutas), cativas do bordel e da sexualidade tratada como erotismo para o prazer de outros; as Presas, cativas pelo delito e pela lei, retidas nas prisões; por último, as Locas (loucas), cativas em sua loucura e presas ao manicômio. Existem cativeiros mais intensos que outros, como as Monjas, que reúnem tabus sexuais tanto da figura de mãe como da figura da prostituta, já que seu corpo não serve nem para o prazer de outros e nem para ser uma progenitora. Existe, ainda, o lugar de materialização dos cativeiros. São eles: quarto, casa, prisão, convento, manicômio, hospital, bordel e prostíbulo. A mulher não é livre nem nos espaços públicos e privados e nem no simbólico.

A particularidade dos cativeiros está no grau e nível de aprisionamento. Isso permite que uma mulher se torne diferente da outra. A diferença é construída porque “Las mujeres comparten como gênero la misma condición genérica, pero difieren en cuanto a sus situaciones de vida y en los grados y nivales de la opresión” (2005, p.79). A criação, a língua materna, a crença, a relação de mulher com os homens e outras mulheres, o acesso aos bens materiais, as preferências sexuais e os demais fatores externos sociais e culturais interferem na opressão que uma mulher sofrerá ao longo da sua vida.

A maneira como Frida Kahlo retratou experiências pessoais ligadas a sua condição de mulher vão de encontro com o que Lagarde propõe como cativeiros. O casamento e o divórcio, o desejo e a impossibilidade de gerar um filho e o corpo imperfeito são os recortes feitos na obra da pintora por este trabalho. Por isso, o cativeiro que será usado para fazer a análise é o da Madresposas, uma vez que toda mulher, antes mesmo de nascer, está associada à ideia de matrimônio e maternidade.

Fundamentos teórico-metodológicos

Independente da idade, da classe social, da nacionalidade, da religião e da orientação política, todas as mulheres já nascem cativas da figura de mãe e esposa. “Todas las mujeres por el solo hecho de serlo son madres y esposas. Desde el nacimiento y aun antes, lãs mujeres forman parte de una história que lãs conforma como madres y esposas” (2005, p.363).

Para traçar o perfil das Madresposas, a antropóloga identifica os tipos frequentes da figura da mulher presa a esse cativeiro. São elas:

Madre pública, que é a mulher que, a partir do seu trabalho e atividades, realiza a reprodução social em entidades públicas. São mulheres que desempenham atividades de cuidar de outros, como as médicas, enfermeiras, babás, cozinheiras, professoras, secretárias, psicólogas e até policiais. São trabalhos reconhecidos como extensão da maternidade.

Madre estéril, aquela impossibilitada de ser progenitora do seu próprio filho. Essa mulher é vista pela sociedade como um ser incompleto e imperfeito. Mais que isso, ela causa assombro e desdém na sociedade. A mulher estéril é considerada, mesmo que de maneira inconsciente, culpada pela sua condição imperfeita.

Madres sin hijos, que são as mulheres que não tiveram filhos porque negaram a maternidade. Continuam sendo consideradas mães, mesmo que sem filhos, por causa da sua condição de gênero, mas são vistas como alguém que cometeu um atentado imperdoável contra a natureza.

La esposa, é o personagem fruto de relações monogâmicas, classistas, racistas, étnico-nacionais, religiosa e política. Se baseia na inferioridade da mulher, em que é possível, segundo exemplos de Lagarde, que um homem se relacione com uma mulher de classe inferior, mas não o contrário. Tal ideia é vendida para a sociedade como a possibilidade de mobilidade e ascensão social que é dada à mulher por meio do casamento. Na mesma linha, a mulher deve ser mais nova, ter menos conhecimentos reconhecidos, deve ser casta e fiel, deve ter menor em estatura e com o físico mais delicado que o do seu esposo.

Madres domésticas, que são as mães consideradas pela sociedade como as mais importantes, pois se encontram na esfera doméstica. Além das mães propriamente ditas, são também as babás e as domésticas, que funcionam como uma mãe substituta aos filhos de outras mulheres

Algumas dessas categorias de cativeiro demonstram que mulheres são oprimidas por padrões sociais estereotipados não porque foi decidido que assim seria por um homem ou homens de maneira voluntária, mas pelas necessidades de uma sociedade patriarcal e classicista. Justamente por serem involuntários e históricos, os cativeiros significam para a maioria das mulheres sofrimento, conflitos, contrariedades e dor.

O corpo feminino, explorado nas obras de Frida, é o local de materialização dos cativeiros humano, sendo a sexualidade feminina colocada a normas e disciplinas sociais para que então esse corpo, já domesticado, seja submetido a serviço da sociedade e do poder de instituições e particulares – de outros homens e outras mulheres.

Cabe a este trabalho identificar os tipos de mulheres cativas na obra da pintora mexicana. É objeto de estudo a seguir a maneira como Frida retratou suas experiências como esposa e mãe nos três quadros escolhidos.

Metodologia

Com a contribuição da obra de Marcela Lagarde, construiu-se uma análise comparativa entre o cativeiro Madresposas e três quadros de Frida Kahlo em que a artista se refere à maternidade e ao matrimônio: Frida Kahlo e Diego Rivera ou Diego Rivera e Frida Kahlo (1931); O Hospital Henry Ford (1932); Uns Quantos Golpes (1935).

Cada quadro analisado foi caracterizado como um testemunho da pintora para expressar, por meio das artes plásticas, o sentimento causado ao viver tal experiência, fruto do cativeiro de ser uma Madresposa. As diferentes obras, pintadas em diferentes contextos de vida de Kahlo, demonstram os graus e níveis variados de uma Frida cativa, às vezes menos, às vezes mais. Às vezes fisicamente, por vezes simbolicamente.

Nos últimos dez anos de vida (1944 – 1954), a pintora retratou suas experiências em um diário pessoal. Esses anos correspondem ao período do divórcio do casamento com Diego Rivera e do agravamento dos problemas de saúde. O diário foi lançado como livro com o nome de O Diário de Frida Kahlo – um autorretrato íntimo. O livro foi utilizado como base de consulta e pesquisa para este artigo, que considerou a vida pessoal da artista para analisar seus quadros.

Resultados

Quadro Frida Kahlo y Diego Rivera o Diego Rivera y Frida Kahlo

Quadro Frida Kahlo y Diego Rivera o Diego Rivera y Frida Kahlo

Frida casou-se com Diego Rivera em 1929. Vinte anos mais velho, maior em tipo físico e já reconhecido entre os artistas da primeira metade do século XX, Frida retratou o dia da união no quadro Frida Kahlo e Diego Rivera ou Diego Rivera e Frida Kahlo (1931). O casal aparece de mãos dadas. Enquanto os pés da pintora parecem flutuar, os do marido estão fortemente tocando o chão. Enquanto ele carrega uma paleta de tintas, demonstrando o seu status na sociedade, um pintor famoso e talentoso, Frida apenas segura a mão do marido, também demonstrando sua nova posição social: mulher de Rivera. Kahlo não usa o tradicional vestido branco de noiva. No lugar, aparece com um vestido verde e um xale vermelho, que mais se assemelha a um manto sagrado. Mesmo fugindo de alguns rituais da cerimônia de casamento, Frida escolheu se casar e não apenas viver com Diego. Explica a antropóloga: “De ahí que la maternidad y la conyugalidad sean apreciadas como tales solo si ocurren em lãs condiciones del ciclo de vida, de ritualidad, y de institucionalidad sancionadas” (1991, p.365). Aqui é Frida se apresentando como La Esposa, a mulher frágil, inferior e em ascensão social por causa do matrimônio.

O Hospital Henry Ford

O Hospital Henry Ford

O primeiro aborto espontâneo, dos três que sofreu, veio em 1930, quando se mudou para os Estados Unidos para seguir a expansão norte-americana da carreira de Diego. Dois anos depois, sofreu o segundo aborto. É dessa época o quadro O Hospital Henry Ford (1932), nome de um hospital da cidade de Detroit, em que a pintora sofreu o segundo aborto. A artista aparece nua e ensanguentada em uma cama hospitalar muito maior que o seu corpo. Entre as figuras que rodeiam seu corpo, aparece a sua pélvis, quebrada em três lugares no acidente de trem que sofreu na adolescência, assim como também retrata os órgãos reprodutores. Segundo Lagarde, a Madre Estéril é a mulher imperfeita e incompleta. “Si cualquier mujer es un ser incompleto, la madre estéril es una mujer incompleta e imperfecta, ocasiona asombro y desdén” (1991, p.396) Assim parece se expressar Frida, culpando seu corpo imperfeito e atribuindo, assim, a culpa a si, pela impossibilidade de gerar um filho. O corpo nu e abandonado retratado na cama do hospital de Detroit é a justificativa do seu fracasso como mulher, já que, segundo aponta a antropóloga, “ser mujer es ser madre”. A sexualidade, o lugar de realização dos cativeiros humanos das mulheres, também é retratada no quadro. A orquídea violeta que aparece ligada a Frida no pé da cama é uma representação da flor que Diego levou em condolência a sua perda. Ou seja, a pintora representa a sua sexualidade, nesse contexto, do ponto de vista de um homem, o seu marido. A sexualidade de seu corpo não lhe pertence mais, é de exclusividade de seu cônjuge. A solidão e a inutilidade de seu corpo inerte em uma cama grande demais para o seu tamanho pequeno são percebidas no quadro.

Unos cuantos piquetitos

Unos cuantos piquetitos

Em 1935, Frida passa pelo processo de divórcio de Diego ao descobrir que o marido mantém relações extraconjugais com a irmã mais velha dela, Carmen. A pintora sai de casa e vai morar de aluguel em um apartamento modesto no centro da Cidade do México. Dessa época, pinta o quadro Uns Quantos Golpes (1935). A justificativa da artista é que a obra foi feita a partir da notícia de um jornal em que um homem mata a esposa a facadas por causa de ciúme e, ao se defender no seu tribunal, diz ao juiz de Direito que foram apenas uns golpes. Outra possibilidade de interpretação é o momento pelo qual Frida passa. Se sentindo ferida e machucada pela deslealdade do marido, a pintora demonstra que também sofreu violência de quem amava. O corpo, retratado mais uma vez inerte, ensanguentado e sem vida, materializa o cativeiro da Madresposa. Ao se separar de Diego, sem filhos e traída, Kahlo está anunciando a sua morte social, o seu assassinato simbólico. Seu corpo, ferido, imperfeito e mutilado, à imagem da mulher do quadro, não serve para mais nada em âmbito social.

Discussão

O sentimento de inadequação na sociedade do século XX pode ser percebido nos três quadros de Frida Kahlo, principalmente quando a mexicana retrata seus abortos espontâneos e se pinta em um corpo mutilado ou com duas cabeças, ou quando se pinta feliz e à semelhança de uma figura santa no seu retrato de casamento.

A comunicação entre as obras dessas duas mexicanas demonstra que Kahlo sofreu as opressões machistas e patriarcais impostas a sua condição feminina, estando a pintora presa a esses cativeiros em diversos níveis e maneiras durante a vida. A importância social da obra de Frida, no que diz respeito a discussões de gênero, reside no fator da pintora ter retratado e assim comunicado à sociedade as pressões e frustrações que sentia por ser mulher e não corresponder às expectativas de mãe e esposa. É o que afirma a antropóloga no livro, reconhecendo o valor do testemunho dos quadros de Frida ao afirmar que “(…) tal es el caso de la pintora Frida Kahlo, quien dintetizó de manera simbólica el adentro de las mujeres, su vida como vida interior, encerrada, cautiva de su condición genérica” (1991, p.397). Além disso, a condição social da mulher, para Lagarde, é histórica e não natural e por isso a importância em se analisar histórias passadas de vidas de mulheres.

Considerações finais

A maior parte da produção de Frida é de autorretratos. Pintou quase que exclusivamente o próprio rosto, principalmente durante e nos anos que seguiram o divórcio com Diego. A expressão facial em quase todos é a mesma: é fria e distante. Já os quatro anos que viveu com o marido nos Estados Unidos foram os menos produtivos da pintora. Isso demonstra o quanto o cativeiro, estando adequada em um primeiro momento, com a realização do matrimônio, e inadequada em um segundo momento, com a esterilidade e a separação, consumiram sua produtividade enquanto pessoa subjetiva e emocional. Diz Marcela Lagarde que “para que la mujer exista es necesaria la preexistência del hombre. Ella sólo existe social e individualmente por esta relación” (2005, p.367). Ou seja, ser mulher é ser mãe, enquanto que para existir como mulher é preciso ser esposa.

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