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Ciclovias em SP: o que eu mulher tenho a ver com isso?

O debate sobre ciclovias e afins sob o ponto de vista de mulheres que pedalam e enfrentam uma tripla violência: a de gênero, combinada com os direitos à cidade e ao transporte violados 

Por Laís Modelli

mulher bikeJá parou para pensar como questões sociais e políticas que afetam a todos, pode ser pensada também com um foco de gênero, considerando que as problemáticas sociais não afetam a todos os grupos sociais da mesma maneira? Para falar a verdade, eu comecei a pensar sobre isso depois que ouvi mulheres contando como que o problema da crise hídrica de SP afetou muito mais mulheres pobres e da periferia, que dependem quase que 100% da água dentro e fora de suas casas, pois são elas, na maioria das vezes, pessoas que limpam e cuidam da casa, ou tem profissões ligadas à limpeza, como domésticas, cozinheiras ou lavadeiras. “Somos nós mulheres que estamos parando caminhão de água na rua porque somos as mais afetadas”, me disse uma delas.

Foi pensando nisso que passei a olhar sobre o andar de bicicleta na rua sob o ponto de vista feminista. A minha própria relação com a bike foi ressignificada depois de uma agressão de gênero: quando eu tinha uns 11 anos, estava andando de bicicleta na rua, perto da casa dos meus pais, e, um homem que passou numa outra bicicleta, passou a mão na minha bunda e ainda tentou me derrubar da bike. Lembro que pedalei o mais rápido que pude para alcançá-lo, pra quebrar a cara e a mão dele, mas não consegui e sentei na calçada para chorar…fiquei anos sem andar de bicicleta, com medo do que poderia acontecer. Em 2013, voltei a andar de bike e até comprei uma, mas fui atropelada por um senhor que não parou no Pare e ainda não prestou socorro.

ciclovia_paulista_PauloPinto_FotosPublicasAssistindo o vídeo que a Carta Capital postou sobre o protesto do dia 19/03, na Praça do Ciclista, contra a paralização das obras de ciclovias de São Paulo, paralização pedida pelo Ministério Público (chocada com esse MP), eu vi que tinha muitas mulheres no protesto. Resolvi, então, perguntar para amigas e amigas de amigas que andam de bicicleta em São Paulo como é pedalar numa cidade de trânsito tão violento e machista como a nossa capital.  E ouvi alguns depoimentos muito preocupantes:

O primeiro foi o da amiga Tássia Tieko. Ela usa a bike às vezes para ir ao trabalho e faz questão de pedalar numa versão vermelha, cheia de adesivos e capacete rosa. Mesmo nunca tendo sofrido nenhuma violência no trânsito, ela me falou que evita pedalar em certos lugares que possam não ser seguros para mulheres. “Eu evito lugares muito desertos. Acabo andando a mais só para não passar por certos lugares. A gente já faz isso de uma forma tão natural que, quando a gente para pra reparar, é uma liberdade que nos é tirada“. Pois é, mobilidade e direito a cidade para aqueles que podem, né. A Tássia ainda reclamou de vários trechos de ciclovia que são mal iluminados e compartilhados com pedestres.

Já a amiga Vanessa Cancian me disse: “Sempre penso sobre isso…eu acho muito muito pior mesmo pedalar sendo mulher, andar de bicicleta pelas ruas de São Paulo. Além do trânsito que não respeita os ciclistas, nos coloca a prova para encarar o machismo e a falta de respeito com as mulheres. É comum ouvir cantadas escrotas e pessoas falando coisas do tipo: “ah, quero ir nessa bicicleta”, daí pra baixo. Mas o que me entristece mais é quando taxistas ou outros carros, que além de estarem nessa posição confortável que é sentar a bunda atrás do volante, vociferam coisas do tipo: “vai, com força”, ou “mais rápido” como se tivéssemos a obrigação de pedalar com alta velocidade“.

A ciclista Marcela Marcondes me contou sobre as “cantadas” de motoristas que pode acabar em fechadas. “No geral, os motoristas nao respeitam ninguem de bike, independente do gênero. Agora, por ser mulher o que rola são essas cantadas ridículas que dá vontade de morrer. Tipo, passar em alguma rua e cruzar um grupo de homens. Sempre tem o comentário “ai sim hein”. Ou então já aconteceu, mais de uma vez, de eu estar pedalando e um carro começar a andar do meu lado na mesma velocidade e o motorista ficar me encarando. No começo até xingava, perguntava o que tava olhando e tal, mas aí o cara se “ofende” e além de xingar, tira uma fina ou acelera em cima pra assustar“.

Para a Luiza Peixe, o maior problema do trânsito de SP é ter que dividir a rua com alguns motoqueiros e motoboys que chegam até a perseguir ciclistas mulheres. “É sempre muito incomodo parar no sinal vermelho alinhada com motoboys. Dificilmente eles falam alguma coisa mas, pelo menos comigo, sempre rola aquele olhar faminto e grotesco de civilidade zero. Se há apenas um motoboy no farol com você, ele possivelmente vai te olhar mas desviar se você olhar de volta. Quando estão em maior número vão olhar mais agressivamente, as vezes fazer comentários entre eles, não vão desviar se você os encarar de volta“. Luiza conta que os olhares podem chegar até a perseguição em alguns casos. “Uma vez estava saindo de uma reunião da Liga Feminina de Bike Polo, de bike com outras 6 amigas. Devia ser por volta de umas 19h num sábado e estávamos todas subindo a Av. Angélica em busca de um lugar pra comer. Eis que descendo a rua na maior velocidade vai uma garota gritando alguma coisa seguida por um cara numa moto. Todas nós começamos a nos perguntar o que a garota tinha dito, então uns pedestres disseram que ela ela tinha dito algo como “para de vir atrás de mim!”. Sem nem pensar duas vezes, todas nós mudamos o caminho e seguimos descendo a Angélica tentando alcançar os dois. Alguns quarteirões depois, na altura do cemitério, um semáforo fechou na Angélica, fazendo o motoqueiro parar enquanto a garota e todas nós descemos pela R. Mato Grosso a caminho da Consolação. Ela comentou que o motoqueiro a estava seguindo fazia alguns quilômetros, então dissemos pra ela seguir pela Sabará enquanto o restante de nós ficou parada na bifurcação esperando até ele chegasse. Quando avistamos o motoqueiro se aproximando, começamos a gritar entre nós que a garota tinha ido pela Consolação. Ele virou rumo Consolação, parou no sinal vermelho e levou uma bronca nossa”.

A Gabriela Kato me contou que as cantadas grosseiras de certos motoristas e pedestres a incomodam quando está sob duas rodas. “Uma que foi assediada e, por retrucar, foi até atropelada“. Gabriela costuma participar de passeios de bike em grupos só de mulheres e conta que “Ainda tem caras que não aceitam o fato de um grupo de mulheres andar nas ruas sem a presença de homens no meio. Tipo falarem que falta homem pra gente“.

larissa bijuTambém tiveram depoimentos animadores como o da Larissa Biju Vieira. “posso te dizer, surpreendentemente, que me sinto muito mais segura na bicicleta do que à pé. Trabalhava como ciclista courier, e pedalando das 9 da manhã às 7 da noite, pude vivenciar experiências em que houve mais admiração do que assédio. Os homens parecem respeitar a mulher ciclista pela própria posição em que ela se coloca, capaz de enfrentar o trânsito, livre para escolher seu caminho, aonde vai, à que horas vai, à que horas volta, dona do próprio nariz“. A Larissa já chegou a fazer, na companhia de mais uma amiga, uma cicloviagem e recomenda a experiência das duas rodas para toda mulher. “Adoro citar a Susan Anthony (ativista feminista do século XIX): “Andar de bicicleta fez mais pela emancipação da mulher do que qualquer outra coisa no mundo”, e é assim mesmo que me sinto como ciclista mulher: forte e livre“.

Para a Evelyn Araripe, “Quero quebrar um mito: pedalar não é violento. Bicicleta é o único veículo que quanto mais usuários você tem, menos mortes você tem no trânsito. Nos últimos anos, as mortes por acidente de bicicleta em SP caíram drasticamente. No entanto, a cobertura da mídia aumentou, o que dá a impressão de que se ficou mais perigoso e violento pedalar. Isso é uma grande mentira. E isso se conecta com as mulheres na bicicleta. Grandes estudiosos de planejamento urbano e mobilidade por bicicleta identificam como um dos principais indicadores de que as ruas estão mais seguras para pedalar com o aumento de mulheres na bicicleta“. “Eu pedalo há 7 anos em SP. Sou da época em que a bicicletada tinha 200 homens e 4 meninas. Eu não via uma mulher pedalando na rua, Hoje o que eu mais vejo são mulheres de bike. Chego a ver mini-congestionamentos de bike, todos com mulheres. Já vejo mães levando crianças na bicicleta. E isso já diz muito sobre como São Paulo está melhor para se pedalar. Quanto à violência ou assédio, apesar de parecer mais perigoso, ao pedalar as mulheres percebem que é bem melhor e mais tranquilo“.

Quase todas que conversei, que foram cerca de 15 ciclistas, me contaram que, pensando somente na violência de gênero implicada em transposte público, elas se sentem mais seguras na bicicleta do que no ônibus ou metro. O motivo: não precisam passar por pegadas ou passadas de mão e ainda podem fugir com maior facilidade.

Diante de tudo isso, só me vem um pensamento: ter direito a uma cidade sobre duas rodas segura e digna é sim uma pauta feminista e precisamos conversar e sermos ouvidas sobre.

Esse é o vídeo que comentei sobre o protesto em SP contra a paralização na construção das ciclovias e é muito explicativo sobre o que vem acontecendo na capital:

Estatuto do Nascituro, a institucionalização do estupro no Brasil

No mundo, 1 em cada 3 mulheres é estuprada (dados FBI). No Brasil, a cada 12 segundos uma mulher é estuprada. São quase 6 mulheres por minuto. Mal deu tempo de você terminar essa frase e nesse momento deve ter uma mulher gritando de dor e pavor enquanto é agredida física e psicologicamente da maneira mais humilhante que alguém pode ser. O pior é que, quando essa cena de terror acabar, ela estará com tanto medo, do agressor e da sociedade (afinal, agora ela é uma “moça violada”), que talvez não tenha coragem de ir a uma delegacia registrar o ocorrido…E se essa mulher foi infectada com alguma doença? Se ela estiver com AIDS? Se ela estiver grávida?

O Bolsa Estupro

ESTUPRO-nem umaDe acordo com o Estatuto do Nascituro, um projeto de lei de 2005, a solução é simples: o BOLSA ESTUPRO. Juro que não é piada…

Uma vez que o aborto no Brasil é legal em casos de anencefalia, risco de vida da mãe ou casos de estupro, a maneira que grupos conservadores  encontraram para coagir legalmente, mais uma vez, a figura da mulher na sociedade, foi o, repito, BOLSA ESTUPRO, que dará um salário mínimo para a mãe até que a criança faça 18 anos. Caso o estuprador seja identificado, ele terá de assumir a paternidade, pagar tal pensão (ele não deveria estar preso?) e não lhe serão negados os direitos de “pai” sobre a criança. Ou seja, a solução é tipo kinder-ovo: vamos dar um pai para essa mãe estuprada.

Mais que desumano e humilhante, esse projeto de lei reflete o pensamento machista e conservador: é preferível manter a ordem heteronormativa de uma família tradicional, com mãe mulher e pai homem, mesmo que essa mãe tenha sido agredida, abusada e violentada por esse “pai”, do que dar o direito a essa de mulher seguir seus próprios caminhos, seja seguindo com a gravidez fruto de um estupro e ser o que chamam de “mãe solteira”, outro termo que acho um absurdo e também já institucionalizado pelo nosso Estado machista, ou preferir abortar.

É assim mesmo, Estado, que vocês identificam a figura da mulher na sociedade? Um mero ser reproduzir, independente das condições, das emoções e das circunstâncias?

O Estatuto ainda trata ainda do aborto em outras situações de risco para a vida da mulher. Se ela estiver passando por tratamento de saúde que interfira na gestação, ela terá que interrompe-lo, mesmo que possa morrer durante a gravidez. Isso também vale para fetos anencefalos.

Por último, mulheres engajadas na luta pelos direitos das mulheres que falarem sobre a legalização do aborto poderão ser processadas, deixando bem claro que o Estatuto não pretende proteger vidas, mas garantir que antigas estruturas machistas e patriarcais sejam mantidas e até previstas por lei na sociedade brasileira. Ou seja, a mulher, o último personagem social a poder votar, mais uma vez será marginalizada pela legislação do seu país.

criminalização-nem uma mulherManifeste-se!

Amanhã, quarta-feira, acontece o 2º Ato contra o Estatuto do Nascituro em São Paulo. Veja o evento no Facebook

Assine a petição contra o Estatuto pelo Avaaz

Manifeste-se por e-mail para os membros da  Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC), próximos a votarem pelo Estatuto:

Presidente: Décio Lima (PT/SC) – dep.deciolima@camara.leg.br
1º Vice-Presidente: Mauro Benevides (PMDB/CE) – dep.maurobenevides@camara.leg.br
2º Vice-Presidente: Luiz Carlos (PSDB/AP) – dep.maurobenevides@camara.leg.br
3º Vice-Presidente: Carlos Bezerra (PMDB/MT) – dep.carlosbezerra@camara.leg.br
Relator: Marcelo Almeida PMDB/PR – dep.marceloalmeida@camara.leg.br

E anote os nomes dos deputados que propuseram o Estatuto, sendo você ou não uma vítima da estatística dos 12 segundos: Osmânio Pereira e Elimar Máximo Damasceno. Não à criminalização da figura da mulher.