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O Feminismo e as relações de gênero em ‘Um Senhor Estagiário’

Depois de explorada pela chefe mulher em O Diabo Veste Prada, agora Anne Hathaway é a chefe exótica em ‘Um Senhor Estagiário’ 

Por Lais Modelli

Semanas atras, assisti o trailer de Um Senhor Estagiário, filme de Nancy Meyers. Gostei do enredo, procurei por informações do filme e li as sinopses de divulgação. Todos os textos e criticas informavam ser a trama de um aposentado, vivido por Robert de Niro, que vira estagiário de uma empresa moderninha de tecnologia comandada por Jules, personagem de Anne Hathaway. Olha o cartaz de divulgação:

Um-Senhor-EstagiárioO filme entrou em cartaz no cinema essa semana e fui assistir. Imagina qual foi a minha surpresa quando percebi que, na realidade, a trama mais tem a ver com o feminismo ligado as relações familiares e trabalho do que com a temática da reinserção do idoso no mercado de trabalho? Pois Um Senhor Estagiário é a dica do mês para quem quer ver protagonismo feminino no cinema. Não é a produção feminista mais justa dos últimos tempos, mas é gostosa de assistir e faz pensar como as relações sociais ainda são muito injustas na vida de uma mulher adulta. Não sei se cabe comparações com outros filmes, mas a personagem Jules de Um Senhor Estagiário talvez esteja entre as personagens de Diabo Veste PradaNão Sei Como Ela Consegue.  Mas vamos aos prós e contras do filme no que diz respeito a feminismo e representações de gênero:

Contras 

1.O filme não tem uma personagem negra; as negras que aparecem, são apenas figurantes, não tem nomes.

2.As mulheres em volta de Jules não são representadas com a mesma força que ela. Na verdade, da para perceber que foram divididas em dois núcleos: mulheres que trabalham para Jules e por vezes incorporam o estereotipo da mulher estérica no trabalho; mulheres que invejam ou criticam (ou fazem os 2 juntos) a vida não tradicional de Jules, sendo que a própria mãe dela esta nesse núcleo.

 

3.O filme peca em ficar comparando os homens de hoje, os jovens, com o cavalheiro de tempos antigos do personagem de Robert de Niro. Sabemos que o tal do cavalheirismo mais tem a ver com machismo do que com ser educado com uma mulher. Fazer e receber gentilezas e uma função de qualquer gênero, não só na relação entre homem-mulher.

4.Jules não tem UMA amiga, nada, nenhuma. Talvez a intensão tenha sido a de mostrar que ela teve que abdicar a muita coisa para fazer da sua empresa de tecnologia um lugar bem sucedido dentro de um mercado extremamente machista, mas acho que mais uma vez soou como aquela ideia de que uma mulher bem sucedida só tem inimigas e invejosas a sua volta. Alias, essa é a maior ideia da sociedade machista contra o feminismo desde sempre: mulheres não são amigas, são competitivas entre si.

Prós 

1.Jules quebra o estereotipo que Hollywood tanto faz das personagens ‘mulher-chefe’: ela não tem cabelo curto, não se veste igual a um homem, não é masculinizada, não é megera, não é contra o casamento, não é uma mãe desnaturada que só pensa na carreira e foda-se todos a sua volta. Ou seja, Jules é uma mulher normal que trabalha fora de casa e que tem marido e filha. As controversas que a personagem assume no ambiente de trabalho – como andar de bicicleta pelo escritório e não contratar empregado idoso – mais tem a ver com os estereótipos dos personagens de jovens donos de empresas de tecnologia do que com o gênero do personagem em si.

2.O personagem de Robert de Niro não é indiferente aos problemas de gênero que a chefe Jules enfrenta no dia a dia do mercado de tecnologia. Ele tem uma das falas mais bonitas do filme, alias, quando explica para as mães (invejosas) das coleguinhas da filha de Jules, em uma festinha, porque ela não pode levar a filha.

3.O marido de Jules tem um papel importante e bem justo no filme para discutir a inversão das papeis de gênero tradicionais. Ele é um marido que abdica de sua carreira para cuidar da filha e dar mais tempo a mulher, que acaba de abrir uma empresa. No inicio, ele é tratado com um homem samaritano, o santo da casa, por ter feito esse gesto para apoiar a carreira da mulher, mas logo as mascaras caem e o filme vale a pena.

4.O filme mostra nos pequenos detalhes como a sociedade ainda é muito cruel com mulheres que querem ter uma carreira de sucesso. Apesar de não ser explicito (o que para mim foi um ponto negativo), Jules passa metade do filme pressionada – pelo marido e pelos investidores – a contratar um CEO (HOMEM) para gerir a empresa que ela criou sozinha e que vai muito bem com ela na gerência. Toda mulher que esta inserida no mercado de trabalho sabe que e muito comum ter o trabalho dela desvalorizado e desmerecido quando ela não esta associada a figura de um homem – seja ele chefe ou apenas parceiro de trabalho.

Acho que a apresentação do filme no material de divulgação, que desloca o tema principal da mulher bem sucedida no mercado de trabalho machista, para o tema de um homem idoso que volta a trabalhar, foi estrategia de marketing para fugir das classificações de ‘comedia romântica’ e ‘filme para mulher’, que foi o que acabou acontecendo com o Não Sei Como Ela Consegue, por exemplo…Espero que todas e todos que tenham ido assistir o filme tenham entendido qual a real temática de Um Senhor Estagiário.

 

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“Ni una más”, o simbólico da frase

Os casos de feminicidio e a dose de machismo diário para nos roubar um pouquinho de vida todos os dias

Por Laís Modelli

Símbolo de luta do Ni Una Más

Símbolo de luta do Ni Una Más

Era o que ouvia nas ruas do México quando morei no país, em 2013. Eles e elas estavam em toda manifestação (coisa que acontece quase toda semana na Cidade do México), segurando cartazes, as vezes com a boca amordaçada em símbolo de protesto, sempre com os dizeres “Ni una más”. Eu não entendia o que aquela frase, claramente de um movimento feminista, teria a ver com manifestações sobre problemas políticos, lutas de terras, miséria mexicana, censura midiática e narcotráfico. Mas tem.

No dia 31 de janeiro, data da marcha nacional de todas as manifestações do México (leia mais numa matéria minha para a Caros), perguntei a um homem que segurava um desses cartazes o significado. Ele me explicou que a frase remete às mulheres “mortas de Ciudad Juarez”, cidade na fronteira com os EUA onde crimes brutais contra mulheres é algo corriqueiro e quase sempre sem investigação na Justiça dos agressores. Com a divulgação dos casos de Juarez por ONGs e movimentos sociais que lutam pelas vítimas, a frase se espalhou pelo México e outros países da América Latina para denunciar todo abuso, crime e maltrato contra o sexo feminino.

Aconteceu que as “mortas de Juárez”, expressão que depois descobri ser reprimida por pesquisadores feministas do México por parecer que as mortes não têm causa aparente e que são mortes por causa de um comportamento “natural” da região (coisa que os pesquisadores lutam para ser reconhecido como casos de Feminicídio), me chamou atenção. Passei a pesquisar o caso mexicano e vi como o meu país também se enquadrava nos casos de discriminação e violência contra mulher. Me perguntei se é um comportamento de repulsa e rebaixamento cultural ao sexo oposto cometido em todos os países latinos? Ou em todo o continente americano? Ou no mundo todo? Eu não sei, mas o fato é que existe uma marginalização da figura feminina, e é muito mais mascarada e refinada do que aquele antigo papo de diferença salarial entre homem e mulher. O buraco é mais embaixo, mais sutil, mais devastador.

O projeto do blog
Depois de frequentar um grupo de estudos feministas na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), de ter contato com os estudos de Marcela Lagarde (bio) e quebrar o meu próprio preconceito com a palavra Feminismo, passei a me interessar pelo tema, principalmente sob o ponto de vista midiático: a mídia tem contribuído para a construção de uma nova consciência feminista ou para a manutenção de um antigo machismo patriarcal? Sou jornalista e também posso estar nessa ciranda sem perceber o impacto das minhas palavras publicadas.

O fato é que, depois que se sente na pele o machismo latino, seja pela separação de homens e mulheres nos metrôs da Cidade do México, seja pelo constante medo de ser estuprada em um táxi clandestino em qualquer lugar do continente, crio o blog para reunir pesquisas e notícias sobre tipos de violência contra a mulher no Brasil e no mundo. O material reunido no Nem uma (mulher) mais pretende virar insumo para pesquisa de gênero em Comunicação Social para o meu mestrado. Assim, todos que também se identificam com a causa, podem contribuir com opiniões, envio de textos, vídeos e notícias. Obrigada.

EDITADO: O Nem uma mulher mais virou projeto de mestrado em março de 2014. No lugar de estudá-lo, achei mais coerente estudar manifestações feministas em blogs (Blogueiras Feministas, Blogueiras Negras e blog da Marcha Mundial das Mulheres) e em marchas de rua. O que leio, escrevo e assisto, continua vindo pro blog ou para a página no Facebook, afinal, este blog ainda é uma ferramenta para me comunicar com outras mulheres e feministas e um meio para me fazer pensar sobre o machismo na mídia.

Nem uma (mulher) mais, um observatório sobre violência contra mulheres